The Eternals! Clique “play” para ouvir ou baixar os 3 blocos do programa gravado e editado no Centro Cultural da Juventude, com entrevista e faixas escolhidas por dois integrantes do trio de Chicago.
A banda fez sua terceira turnê pelo Brasil em novembro, apresentando-se no Sesc Pompéia e no CCJ.
Produção: Radiola Urbana, Karen Cunha e Marcelo Gregório.
Bloco 1
1 – “The Mix Is So Bizarre” – The Eternals
2 – “Beware The Swordbat” – The Eternals
3 – “Remove Ya” – The Eternals
4 – “The Origin Of The Heatray” – The Eternals
Bloco 2:
1 – “Stepping Razor” – Peter Tosh
2 – “Ghost Town” – The Specials
3 – “In Time” – Sly And Family Stone
4 – “Monster Zero” – King Ghedorah
Bloco 3:
1 – “Não Identificado” – Gal Costa
2 – “Space Is The Place” – Sun Ra
3 – “Bouquet” – Bobby Hutcherson
Clique ao lado para ler entrevista com vocalista Damon Locks
Sem medo de fazer barulho
Por Lígia Nogueira
Fotos: Zé Gabriel Lindoso
A música brasileira parece ter uma natureza maliciosa. Na busca pela beleza e composição, vai a lugares onde a norte-americana muitas vezes tem medo de ir. É assim que o músico Damon Locks, vocalista e tecladista da banda The Eternals, define o que tanto chama atenção dos estrangeiros na sonoridade produzida no País. Foi assim, também, que ele e os outros membros da banda norte-americana – Wayne Montana (baixo e teclado) e Tim Mulvenna (bateria) – acabaram conhecendo os paulistanos do Hurtmold, com quem tocaram no final de setembro no Sesc Pompéia.
No palco da choperia, o Eternals ofereceu ao público uma amostra de seu som experimental e repleto de texturas, com ares de pós-rock, pontuado por influências da música negra, do reggae e do dub. Houve ainda quem se surpreendesse com a cabeleira black power do vocalista, alegando que o timbre do músico nem de longe lembrava o de um vocal negro. Observações estéticas à parte, o que se ouviu foi uma banda com identidade bem marcada pela bateria, com linhas de baixo flutuantes e efeitos eletrônicos disparados em momentos estratégicos fazendo a cama para que os refrãos hipnóticos rolassem macios.
Formado em 1997 na cidade de Chicago, o The Eternals reúne Locks e Montana, dois ex-integrantes do Trenchmouth, banda que encerrou suas atividades em 1996. Dois bateristas do Tortoise já comandaram a cozinha do grupo até Tim Mulvenna (do Jeb Bishop Trio) assumir as baquetas de vez.
Seu último álbum, intitulado Rawar Style, foi lançado por aqui no ano passado pela Submarine Records. Outros registros do grupo incluem três discos de vinil – os dois primeiros pela gravadora Thrill Jockey, e o outro, Black Museum, pela Aesthetics – além de The Eternals (2000) e Out of Proportion (2004). A turnê que fizeram por aqui em 2003 rendeu um split CD com o Hurtmold.
A Radiola Urbana tentou destrinchar esse emaranhado de influências batendo um papo com o vocalista Damon Locks.
Vocês vivem fazendo parcerias com músicos brasileiros, como Tom Zé e a banda Hurtmold. Como vocês se conheceram?
Nosso primeiro baterista, Dan Fliegel, tocou no Tortoise quando eles foram a banda de apoio do Tom Zé. Quando a gente fez nossa primeira turnê no Brasil, em 2003, a MTV nos chamou para uma entrevista, que foi gravada na casa dele. E o Tom e a mulher dele foram superamáveis e hospitaleiros, foi um grande prazer conhecê-los. Tocamos com o Hurtmold naquela turnê, e formamos um laço forte de amizade com eles. Os componentes do Eternals amam muito da música que vem do Brasil. Conhecer e ficar amigo de músicos brasileiros é uma grande oportunidade pra gente.
O que é tão especial na nossa música que chama tanta atenção?
A música brasileira parece ter uma natureza maliciosa. Na busca pela beleza e composição, vai a lugares onde a americana muitas vezes tem medo de ir. Então, pra mim, a música brasileira é desafiadora, divertida, e na maioria das vezes simplesmente inspiradora.
Muita gente diz, principalmente depois da passagem de vocês por aqui em 2003, que a banda faz um som muito conceitual. O que você acha que acontece?
A última vez que estivemos aí fiquei com uma ótima impressão. Torci para voltarmos ao Brasil desde o momento em que fomos embora. Nós nunca realmente vemos as coisas que a gente faz como experimentais, estamos apenas fazendo o som que curtimos. As músicas do ep “Black Museum” são provavelmente as mais fora do comum, mas quando estávamos compondo as faixas… Estávamos apenas escrevendo canções. Apenas escrevemos o que estamos sentindo. E sentimos de maneira diferente a cada dia, à medida que o tempo passa. Então não tem como dizer o que faremos na seqüência.
“Rawar Style”, seu disco mais recente, versa sobre temas como ansiedade, caos e até reflexão social. O que é o “Rawar Style”?
Estou supercontente com esse álbum. Queríamos criar uma obra coesa que fosse ao mesmo tempo agressiva e melódica. Um disco com uma gama variada de texturas. Quanto à temática, remete a questões que uma pessoa enfrentaria vivendo em uma grande cidade nos Estados Unidos. Com um presidente como o que nós temos, é difícil não ser politizado. Cada vez ele faz o oposto ao que um ser humano pensante faria. Para nós, “Rawar Style” tem um sentido. Significa fazer o que sentimos que é certo, apesar dos obstáculos. Antes de dar o nome ao disco, perguntei aos amigos o que a expressão significava para eles e consegui umas respostas bem interessantes. Isso nos incentivou. Na verdade, temos uma faixa intitulada “Rawar Style” que aparece em um 7 polegadas do selo Gold Standard.
E o que é aquela gravação de um vendedor de pamonha na faixa “Bewareness”?
Gravei da outra vez que estivemos no Brasil. Queríamos dividir um pouco da nossa experiência brasileira com os ouvintes, então decidimos incluí-la na música. Acho que funciona bem. Acrescentou uma atmosfera legal à faixa. Sempre sorrio quando escuto.
A arte do disco se reflete no som: é como se alguém estivesse tentando achar alguma lógica em meio ao caos.
Sim, é isso mesmo. Eu tentei fazer a arte do disco refletir o que há lá dentro. Ao mesmo tempo em que há uma pegada moderna, a música me transporta com freqüência aos anos 60. Tem ordem e uma certa qualidade caótica. Há uma narrativa não-ficcional imediatamente depois de uma narrativa ficcional. São aspectos que eu queria transmitir também na arte do álbum.
De onde a banda tira inspiração?
Tudo exerce influência sobre o grupo. Cada um de nós está sempre comprando música. Todos sempre compram filmes e programas de televisão em DVD. Tim, por exemplo, compra muitos programas de rádio. Eu não compro tantos desse tipo, mas gosto. Os livros são realmente inspiradores. Recentemente, comprei um em italiano. Confesso que não consegui ler, mas era tão cool que eu não pude resistir.
Como é processo de composição de vocês?
Nós nos reunimos para escrever as músicas juntos. Trabalhamos em alguns trechos enquanto estamos tocando juntos até que todos tenham algo que gostem. Mas é tranqüilo se alguém não tem um bom trecho e as outras partes estiverem boas. O cara simplesmente chega e fala: “não tenho nada”. E vai continuar trabalhando até que consiga. Então tentamos encontrar partes que complementem a primeira, como muitas bandas fazem. Ninguém chega com uma noção preconcebida do que será a música. Nós nunca sabemos como a faixa vai soar até que fique pronta.
Em novembro o Eternals vai para o Japão e no mês seguinte a banda embarca para o festival londrino All Tomorrow’s Parties, que tem curadoria do The Mars Volta. Qual a relação do Eternals com eles?
Tenho a impressão de que o Cedric e o Omar eram fãs do Trenchmouth. E desde então eu acho que eles estão intimamente ligados ao som do Eternals. Recentemente os vi tocar ao vivo pela primeira vez e fiquei extremamente impressionado. A música que eles fazem está a anos luz de ser fácil.
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