Veja os vídeos produzidos durante o projeto que teve o acervo “Missão Mário de Andrade” como foco do projeto Interfluxo, parceria entre as web-rádios do CCJ e o CCSP.
No furacão de eventos que tem sido o Centro Cultural São Paulo, faço uma pausa para refletir sobre este evento. Pequeno e humilde em seu tamanho e alcance, mas grande como resultado para uma crítica e reflexão. Trabalho nesta casa há 6 anos e lembro-me das circunstâncias pelas quais fui chamado para desenvolver e coordenar a Web Rádio: dar visibilidade a Discoteca Oneyda Alverenga.
Durante 6 anos, soube da importância deste acervo sem igual na cidade e no país. Mas somente este ano pude, ao ler as cartas entre Mário de Andrade e Oneyda Alvarenga, entender o sentimento e a razão de se montar um centro de documentação e pesquisa de música como este.
É um profundo amor pelo ser brasileiro e principalmente pela música brasileira que faz esta discoteca ser o que é. E amor assim pede do enamorado uma busca inesgotável de compreensão da coisa amada.
As conversas com a Curadoria de Música, com a equipe da Discoteca que guarda a sua história e os entusiastas da cultura ajudaram-me a perceber a grandeza deste projeto cultural pelo qual Mário de Andrade lutou para construir. É algo realmente “monstruoso” – como diriam os jovens hoje – e bastante “inovador” – como diriam os entusiastas das novas políticas culturais.
Lembro-me de sugerir um programa de rádio no qual D.J’s sampleassem fonogramas da Discoteca, como uma forma desta nova geração – no qual me incluo aliás – pudesse reler com os olhos do hoje a história da música brasileira. De certa forma, foi o que aconteceu nestes shows.
Iara Renó baseou-se na obra Macunaíma para criar canções. Talvez ela não conhecesse um outro lado de Mário de Andrade que não a de escritor. Tal foi minha surpresa ao ouvir entre uma canção e outra uma vinheta criada a partir do acervo da Missão de Pesquisas Folclóricas.
Era como se toda mitologia trabalhada no livro tivesse um componente sonoro inédito.
Iara Renó faz uma música hipnótica. Ela mesma parece entrar em transe com as batidas e harmônias, como uma celebração profana. Fiquei pensando nas funções da música e lembrei-me de algumas divisões didáticas feitas pela própria Missão: os cantos de trabalho, as cantigas, os cantos religiosos, etc… Abriu-se um horizonte de possibilidades que eu imaginava, mas não percebia. Pensei o que teria sido a rádio se tivesse essa epifania mais cedo.
No segundo dia pela manhã, foi a vez da apresentação de um cancioneiro com piano e voz. O que poderia ser um contraponto erudito, mostrou-se o mais belo diálogo musical. A certo momento, pensei que estava sendo feito a realização mais imediata do projeto marioandradiano: uma música erudita com a linguagem brasileira em letra e composição. Mas observando o final de semana inteiro do
projeto, veio-me toda história da música brasileira urbana: desde o choro, samba, passando pela MPB dos festivais, rock dos anos 80 e chegando neste momento intenso das novas mídias. Fico curioso com a análise que Mário de Andrade faria deste cenário musical feito hoje.
Para finalizar o projeto, o grupo de RAP “Elo da Corrente” produziu um material realmente inédito a partir da missão. É muito bonito ver uma molecada conhecendo outros projetos do Mário de Andrade que não a de escritor. E melhor, uma molecada que reconhece a importância de todo um pensamento cultural e tenta compreender através de sua música.
Foi um show maravilhoso. Um jogo de quem incorpora e quem é incorporado. Algumas vezes, o grupo usa os fonogramas da missão para falar de trabalho, outras reune-se em uma roda para celebrar o seu
trabalho concluído. O chiado que poderia ser ruído conversa com uma guitarra limpa próxima das acústicas violas. E numa das músicas, questionam o Brasil e sua memória e ao fazer suas rimas em português fora da norma padrão aproximam-se destas pessoas registradas e seu português cotidiano. Foi o momento alto e confirmou a vivacidade e a riqueza deste acervo.
No final do dia, chego a conclusão que não chegamos a 1% da riqueza do trabalho de Mário de Andrade. Talvez ele não gostasse desta música moderna se estivesse vivo. Mas hoje vi aqui um diálogo rico entre o que foi feito e o que está sendo feito. Um respeito a História demonstrado pelo fazer história. Uma busca pela compreensão que só dignifica ainda mais o acervo. Acredito que a partir de agora, a Web Rádio agregará mais uma diretriz para seu tripé: novos artistas, acervo da Discoteca, programação da casa e agora uma busca pela compreensão do que é a música brasileira.
Escrevo ainda sob o efeito deste evento sem precedentes. Agradeço a todos que colaboraram de alguma forma para que fosse um sucesso. Adianto que este foi o início de um projeto maior que caminha ao lado de questionamentos, críticas, sugestões e uma grande satisfação.
“Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
Mas um dia afinal me encontrarei comigo…”
(Mário de Andrade)
Marcio Yonamine – Web Rádio e Tv do CCSP
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